Relato de Paula Miotto sobre o seu terceiro Ultraman

Foto: arquivo pessoal/divulgação.

Os últimos 14km de 84 parece que são só 14 km, mas na verdade são os mais difíceis dos 3 dias de prova. Você já está com 505km nas costas. Tudo dói, mas o que falta é paciência para terminar esses “somente” 14km! Você finalmente chega na reta final, ouve vozes gritando seu nome e o locutor da prova anunciando a sua chegada. Naquele momento você não quer parar, não quer que nada termine. O coração acelera, as lágrimas descem no rosto. É uma felicidade indescritível, é como se tudo fosse lindo e maravilhoso e não existisse mais nenhum problema. Tudo valeu a pena! Eu consegui. Terminei meu Ultraman número 3 como se fosse o meu primeiro. 

Tem coisas que poucos entendem. Como que pode você se tornar uma pessoa melhor por fazer uma prova de endurance por 3 dias. Coisa de maluco. Sim, somos todos um pouco malucos para fazer essa prova. Não é pra todos, mas é para qualquer um. A jornada para chegar ali é de um tamanho valor que só fazendo para entender.

Essa prova teve um gostinho especial de vitória. Voltando a alguns meses atras, na Bahia, onde treinei, tinha dias que não conseguia andar por conta da minha lesão nos pés. Tratei, cuidei e foram horas intermináveis na bacia de gelo. A dificuldade de pedalar na rua e horas intermináveis em uma bike velha de spinning na academia local. Tudo isso foi superado junto com a falta de grana, principalmente como a nossa moeda não valendo nada e a falta de incentivos das empresas. Mas nada disso me fez desanimar. 

Não é fácil para ninguém. O que não contava era chegar em Orlando uma semana antes da prova para adaptar-me com o lugar, mas acabei caindo doente na cama. Foram dias embaixo da coberta dormindo e morrendo de dor. Febre, sinusite, muita dor de cabeça. 2 dias antes de largar tive que ir para emergência, onde me deram 2 antibióticos e muito remédio para dor. Naquele momento não via nenhuma possibilidade de largar essa prova. Mas não queria pensar nisso. Queria ficar em silêncio e focar na minha chegada, nesses 14km finais.

Na véspera de prova, com muita dor e febre, acordei destruída e pensei: vamos tentar. Cheguei na prova e entrei numa bolha: tava bem! Sem dor. Feliz! Fui lá e fiz! 

Performance? Não tem como pensar nisso. Fiz uma prova bonita, sorrindo e na garra. Tudo doía mais do que o normal. Mas a felicidade de estar ali, aberta para aprender o que aquela prova tinha para ensinar-me era muito maior que a dor. Foi uma prova linda. Uma semana após, eu só penso em coisas boas, na energia das pessoas, de como nos tornamos uma grande família, rodeada de muito amor e compaixão! Priceless!


Por Paula Miotto, triatleta amadora brasileira, 3x ultraman finisher.

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