O que te move?

O que te move?

Existe uma razão pela qual a prática esportiva tenha um significado amplo, pela qual a vida dependesse constantemente dessa prática? Estas e outras reflexões e perguntas são feitas pelo treinador Richard Soares e que nos fazem repensar todos os valores e razões pelas quais praticamos o triathlon. Vale a leitura.

Uma palavra de Henri F. Amiel, filósofo suíço, diz: “Os que não tem vida interior são prisioneiros do seu meio ambiente”. Seja você triatleta, nadador, ciclista, mountain biker, corredor de rua ou trail runner, quando lê essa quota, se identifica como sendo um prisioneiro do seu meio ambiente esportivo?

O cenário do triathlon e de outros esportes mudou bastante nos últimos anos, assim como o mundo, em todos os seus âmbitos. Paralelo a isso, vivemos um momento histórico no planeta, pois nunca foi tão fácil o acesso a bens e informações.

E nós temos usufruído desses avanços ou temos sido refém deles?

Vamos analisar melhor. A evolução tem as suas duas faces: a positiva e a negativa. Dentro do nosso espectro esportivo, a busca da evolução vem acompanhada pelas expectativas, resultados, marcas pessoais, estatísticas criados como referência de sucesso. Como consequência, muitas vezes, a ansiedade e o perfeccionismo têm nos guiado.

Os atletas mostram-se perdidos em relação a que caminho tomar em busca de seus resultados. O QUE se pretende atingir? ONDE se quer chegar?

Podemos enumerar três decisões que determinam a percepção, o sentimento e a ação relativos ao esporte e que determinarão qual será a sua contribuição e o que você se tornará:

1- As decisões sobre o que focalizar;

2- As decisões sobre o que as coisas significam;

3- As decisões sobre o que fazer para criar os resultados que se desejam.

Não dá mais para treinar (planilha) apenas para completar uma distância (prova) ou “ir mais rápido”. Afinal, de onde vem esse desejo interno? É importante uma nova abordagem do treinamento que traga uma análise mais profunda destes aspectos. O programa de treinamento deve ser algo mais rico e com valor.

Como a maioria dos triatletas são amadores, é difícil sustentar uma prática esportiva por muito tempo ou até para a vida toda, se continuarmos olhando o esporte pelo olhar “tradicional”. Estamos vendo a euforia inicial de atletas que compram “tudo”, fazem todas as provas em um período curto de tempo e logo perdem a motivação, abandonando o esporte.

Mas, e se existisse uma razão pelo qual a prática esportiva tenha um significado amplo, pelo qual a vida dependesse constantemente dessa prática?  E se, além de desenvolver a parte física, os atletas desenvolvessem “qualidades mentais e emocionais” que, ao contrário da maioria das habilidades físicas, pudessem ser aplicados a todos os aspectos da vida?

Vejamos o caso daqueles triatletas que precisam trocar de equipamento para se manter motivado. Esta motivação “artificial” vai de encontro a uma abordagem valorativa da vida e do treinamento desportivo.

Há de se lembrar que todo esporte traz consigo um componente “mental”. Isto também deve ser treinado. Esse componente é muito citado na história do triathlon: o Ironman exige muito mais da parte “mental” do que da parte “física”.

Praticamos um esporte e, muitas vezes, esquecemos dos reais motivos que nos levaram a ele. A busca pelo “ter” por quem pratica o esporte está maior do que pela busca do “ser”.

Ser um triatleta e um lifestyle! Não é fazendo prova que se vai atingir isso. A prática é uma consistência diária. É no “agora” que vivenciamos o “ser” atleta. Os desafios do dia a dia são muito maiores do que o do grande dia (prova).

Se não tivermos um propósito interior para fazer a prática esportiva, seremos um refém do meio esportivo, porque estará fazendo pela moda e pelos outros. Façamos por nós mesmos, entendemos que ir treinar todos os dias é algo que faz parte de um “valor” que temos na vida e que não se abre mão!

Existe um pensamento: só iremos fazer uma coisa bem feita quando tivermos algo a perder. Então, o que temos a perder deixando de fazer o triathlon?

Por fim, fica a dica de um filme que traz justamente um pouco da mensagem trabalhada aqui no texto – “Poder além da vida” (Peaceul Warrior).

Triabraços.


Richard Soares é triatleta e técnico de Triathlon com 13 anos de experiência. Já participou de 9 Ironman. É pós graduado em Treinamento Desportivo e Fisiologia do Exercício. Técnico nível I e II pela Cbtri. Proprietário da Equipe Limiar em Vitória, Espírito Santo.

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