O Atleta Interior – a busca do autoconhecimento para melhorar o desempenho

Foto: Erik Coser/Editor Revista Alltrinews.

O Atleta Interior – a busca do autoconhecimento para melhorar o desempenho

Richard Soares escreve mais uma interessante reflexão sobre o comportamento dos atletas para a busca do autoconhecimento e a melhora do desempenho esportivo.

Em 2006, foi minha estreia no Campeonato Brasileiro de Longa Distância. Fui quase um dos últimos atletas a cruzar a linha de chegada e mesmo assim fiquei muito feliz com o meu desempenho. Dois anos depois, pela terceira vez que competia esse mesmo campeonato, acabei abandonando a prova por motivo totalmente “egoico”. Eu nunca havia abandonado uma prova antes. O que mudou em mim nesses dois anos?

A resposta é bem simples, e é a mesma mudança que acontece com as crianças. Em uma perspectiva da linha espiritual, nós nascemos iluminados, puros, sem maldade. Basta o contato com o mundo exterior que passamos a perder essa iluminação. O mesmo acontece com muitos atletas. Entramos no esporte com o espírito do “atleta interior”, porém logo somos corrompidos pela vaidade, pela vontade de ganhar dos outros, baixar tempo, ter os melhores equipamentos etc. Pergunta-se: Ganhar dos outros não é o esporte? Na verdade, ganhar dos outros é uma consequência do trabalho que o atleta faz individualmente para melhorar suas fraquezas e ampliar suas habilidades. O adversário nunca deve ser o foco!

O maior triatleta brasileiro de todos os tempos, conhecido por muitos como “Mestre”, Leandro Macedo foi um exemplo de atleta interior. Leandro sempre buscou o autoconhecimento para melhorar o seu desempenho. Seu objetivo nunca foi de “ter” títulos, mas sim de “ser” um atleta melhor a cada dia. Ele não mirava seus adversários, pensava em como podia se desenvolver como um todo e para vida. Passou a usar a meditação para trabalhar o seu lado mental e consequentemente melhorar seu físico através da energia sutil advinda do processo meditativo. Após as prova, ele meditava para se recuperar e para não ficar vivendo do que já havia passado (vitória). Assim, ele se mantinha humilde e respeitoso em relação aos seus adversários, não deixava o ego sobressaltar e se achar o “cara”. Ele estava totalmente presente no momento!

Outro grande exemplo de atleta interior é o triatleta Alexandre Manzan, mas com perfil bem diferente do seu parceiro de ITU Leandro Macedo. Manzan não tem o mesmo lado “zen” que Leandro, mas é um atleta marcado por fazer sempre o que queria. Era considerado um bad boy da sua época, pois não acordava cedo para treinar, conciliava o treinamento com saídas noturnas. Quando viajava para competir as provas do circuito mundial, não gostava de ficar de pernas pro alto trancado no hotel, mas optava por sair para passear, conhecer a cidade que estava. Ou seja, ele não se ocupava em se preocupar com a prova em si, queria viver “tudo” que a oportunidade de estar ali lhe oferecia.

Em 1998 Manzan estava no topo do ranking mundial, quando a ITU anunciou que iria zerar os pontos do ranking e iniciar uma nova pontuação para os Jogos Olímpicos de Sidney. Nessa época ele já não via com tanto brilho disputar as provas do circuito mundial, pois sua vontade interna apontava para o Ironman. Então ele decidiu por não correr mais o circuito e partiu para essa nova experiência. Se ele continuasse naquele caminho, provavelmente iria para o jogos olímpicos, mas não quis ir só para ser um atleta olímpico e fazer o que os outros queriam, ele seguia o que o seu coração dizia.

Manzan se tornou um atleta integrado à natureza, migrou para o X-terra e virou funcionário público. Esse ano, já com seus 44 anos de idade, competiu no X-terra Brasil, etapa mais forte do Triathlon Off Road da America Latina, vencendo atletas bem mais jovens, como Fernando Toldi, Eduardo Lass e Felipe Moleta. Perdeu apenas para dois atletas estrangeiros. Como que ele mantém uma alta performace durante tanto tempo? Simples, ele não busca mais a performance, ele pratica a própria “performance no viver” e desfruta dos treinos, aproveitando cada momento. É um cara que curte viajar, treinar e estar na natureza. E é isso que está faltando nos atletas amadores!

“Eu não sou atleta profissional, faço porque gosto, porque amo o esporte” ou “Eu não vivo
disso, não sou atleta profissional” são discursos comuns dos atletas amadores. Apesar de sempre ter dado razão a estas frases, atualmente passei a interpretá-las de outra maneira. Repare com atenção e perceberá uma enorme incoerência nos fatos. Ninguém vive por dinheiro, todos nós vivemos para fazer o que gostamos. Você ama o seu trabalho porque ganha dinheiro ou você ganha dinheiro para amar o seu trabalho? Você ganha algum dinheiro para amar seus amigos, sua esposa, seus filhos? Não, você simplesmente ama e faz o melhor que pode por eles e ponto.

Então, se você gosta de triathlon, pratica o esporte por amor. Esse é o único e real motivo para praticá-lo bem feito, se entregar por inteiro, torná-lo sua vida, seu estilo de vida, seu lifestyle. E, se ainda puder ganhar dinheiro fazendo isso, “bingo”, melhor ainda. Os valores na sociedade estão invertidos, e muitos acham que apenas se deve fazer algo bem feito se tiver recebendo dinheiro por isso. E se, mesmo ganhando dinheiro, você não gostar do que faz? Não é assim que vive e pensa a maioria das pessoas?

Sim, o esporte, seja o triathon ou outra modalidade, tem que ser algo por qual vale a pena viver; ou você esta esperando o que para viver? Pense nisso!

Fernanda Keller é outro grande exemplo de atleta interior. Em seus depoimentos sempre relatou que suas vitórias derivam de sua paixão pelo que faz e pelo triathlon em si. Isso é tão verdade que ela não se aposentou depois que encerrou a carreira como triatleta profissional, continua treinando e competindo em provas de Ironman. Para Fernanda, o triathlon não é apenas um esporte, é um pilar em sua vida.

Em evidência no momento, vejo que Thiago Vinhal e o atual Campeão Mundial de MTB, Henrique Avancini, também são. Atletas que estão treinando com o coração e colocando a sua vida ali, sem limitar suas capacidades, sem pensar que precisa estar em determinado local ou ter aquele material para se tornar campeão… eles não conhecem limites, pois sabem que todo limite é mental. O atleta interior olha pra dentro!

Torne-se você também um atleta interiorizado com aquilo que esta fazendo. Viva só o presente, esqueça o que passou, não pense no que vai vir, encontre um sentido naquela prática. Como diz Thiago Vinhal, “Vivam seus sonhos”.

Tri abraços.


Richard Soares é triatleta e técnico de Triathlon com 13 anos de experiência. Já participou de 9 Ironman. É pós graduado em Treinamento Desportivo e Fisiologia do Exercício. Técnico nível I e II pela Cbtri. Proprietário da Equipe Limiar em Vitória, Espírito Santo.

Revisão: Hellen Fante

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