A TRÍPLICE COROA DO TRIATHLON UNDERGROUND FULL-DISTANCE BRASILEIRO

Foto: Lauro Vianna - Capixaba de Ferro 2018

A TRÍPLICE COROA DO TRIATHLON UNDERGROUND FULL-DISTANCE BRASILEIRO

O que é o triathlon underground full-distance brasileiro? E o que é esta tal de Tríplice Coroa tão comentada no boca a boca dos Ironcrazies?

Quando se fala de triathlon full-distance a primeira coisa que vem à mente é a prova do Ironman ou, até algumas vezes, as provas do Challenge Family. Mas há um movimento underground no triatlon brasileiro que corre solto na boca dos fanáticos pela distância.

São nada mais do que provas que “correm por fora”, não possuem o fashion glamour das franquias mundiais e não conquistam a atenção especial da mídia, tanto a especializada, como a não especializada. São organizadas por atletas que querem experimentar e transmitir a essência do triathlon que acreditam ter se perdido ao longo dos anos.

Basicamente são três provas underground hoje no país. O Cabra da Peste e Mulher Guerreira (Ceará); o Fodaxman Extreme Triathlon (Santa Catarina); e o Capixaba de Ferro (Espírito Santo).

Explicar o que fez estas provas surgirem na cena nacional extrapola os limites deste texto, mas talvez a ideia de buscar “a realização do desafio pelo simples desafio”, ou quem sabe, “fugir da pressão da conquista de vagas para os mundiais”, podem ser algumas das respostas, mas uma coisa é certa sobre as três provas underground brasileiras: elas têm exigido muito dos atletas que resolveram encará-las. Cada uma impõe uma dificuldade extra que as tornam únicas e é aí que entra a graça do negócio.

Para tornar este movimento underground hype surgiu a ideia dos Ironcrazies: A Tríplice Coroa – título para quem vencer as três provas. É um título informal que corre no boca a boca de quem vive o triathlon como estilo de vida na sua essência.

O primeiro atleta a conquistar o título foi Felipe Dayrell, embora suas vitórias não foram conquistadas no mesmo ano. Ele venceu o Cabra da Peste em outubro de 2017 e o Fodaxman em dezembro de 2017. No dia 23 de junho de 2018, levou pra casa o troféu de campeão do Capixaba de Ferro, conquistando a tríplice coroa das provas underground longa distância.

Para contar um pouco de cada uma delas, Felipe Dayrell resume sobre a “Tríplice Coroa”:

1- Cabra da Peste: Prova duríssima disputada no Cumbuco, ao lado de Fortaleza, onde as principais caraterísticas são o mar agitado durante a natação, o forte vento presente no ciclismo com um clima seco, sol forte e calor durante a etapa de corrida. Achei o ciclismo muito complicado devido ao tempo seco e o vento contra muito forte durante todo o percurso. A hidratação era essencial e manter o corpo resfriado também. Precisei parar a bike para jogar água no corpo e me hidratar.”

2- FodaxMan: Prova sensacional e muito peculiar por se tratar de um Extreme Triathlon. Natação em águas calmas, porém a largada é ainda no escuro total, de madrugada sem nenhuma luz, ou seja, não enxergamos nada durante a etapa de natação a não ser as luzes indicativas das boias de retorno.  O ciclismo se caracteriza por diversas subidas onde enfrentamos a temida Serra do Rio do Rastro, com uma paisagem de tirar o fôlego. Após vencermos a serra, nos deparamos com mais subidas em planícies tão lindas que lembravam cenas de filmes de guerra na Escócia! Realmente uma paisagem que nunca havia visto na vida. A corrida começa na cidade de Urubici onde nos deparamos com todos tipos de terreno: corremos dentro da cidade, em estrada de chão passando por fazendas, pegamos estrada de asfalto e por fim, o mais surreal, os últimos 16 km na também temida subida do morro da Igreja (símbolo da prova) com diversas subidas tão íngremes, que em algumas delas é necessário caminhar ao invés de correr. Encerramos a prova no alto de uma montanha (um dos pontos mais altos do sul do Brasil)  com um cenário maravilhoso! Durante toda a prova, cada atleta é acompanhando por seu staff no mais puro estilo ULTRAMAN. A interação entre atleta e staff deve ser perfeita, pois ali é uma equipe envolvida full time durante toda a prova. Nunca havia demorado tanto tempo para completar uma prova na distancia IRONMAN como ocorreu no FODAX! No FODAXMAN as três etapas são difíceis, cada uma com sua particularidade.”

3- Capixaba de Ferro: “Agradável surpresa em correr uma prova sensacional na distancia IRONMAN, onde todos foram muito bem acolhidos pela organização da prova, que não poupou esforços para fazer com que tudo corresse da melhor forma possível. Prova sensacional em um percurso rápido e dinâmico! Natação em um mar delicioso, com águas calmas e ótima temperatura. Ciclismo excelente com grande parte plana, onde conseguimos desenvolver um ótimo ritmo, principalmente no retorno da volta onde pegamos o vento a favor. Nunca havia conseguido ter uma performance no pedal (apesar de não ter sido meu tempo mais baixo de ciclismo em provas na distancia IRONMAN) como ocorreu no Capixaba de Ferro.  A corrida em um percurso a beira mar com muito calor devido ao sol forte e poucas arvores em metade da volta. Considero mais difícil a etapa de corrida devido ao fato da maratona ser realizada em um percurso de oito voltas de aproximadamente 5 km onde cruzamos com os outros atletas a todo momento e o sol castiga muito. O que me chamou a atenção foi o espaço reservado aos atletas e familiares no pós-prova, contando com estrutura sensacional onde ninguém saiu de lá ate o anoitecer”.

Felipe vai além e tenta explicar o que leva os atletas a participar destes eventos. Ele filosofa ao mencionar sobre a “leveza” com que o triatleta encara  o desafio, num clima de felicidade e amizade durante toda a prova entre os atletas e com a própria organização. É a oportunidade de sair do “desfile de moda e da vaidade”, da briga de egos, e daquela disputa insana pela vaga no mundial de Kona. Além disso, merece destaque o fato dessas provas terem um custo menor com a inscrição.

Foto: Lauro Vianna – Capixaba de Ferro 2018

“O fato de ter conquistado as três provas não oficiais realizadas na distância IRONMAN (Cabra da Peste, FODAXMAN e o Capixaba de Ferro) é uma coisa muito curiosa e gratificante, pois a conquista foi apelidadas carinhosamente pelo grupo IRONCRAZYS, o qual tenho a honra em fazer parte, de “A TRÍPLICE COROA”, o que achei de uma presença de espírito incrível, afinal, sou o único triatleta detentor desse titulo!”

Para os que não conhecem a história do Felipe, lá das Minas Gerais, ele começou no esporte ainda adolescente, fazendo seu primeiro IRONMAN em 2004. Foi o primeiro amador geral no IRONMAN Florianópolis em 2016 (vencendo consequentemente a categoria 35-39 anos). Foi o segundo lugar geral no IRONMAN Fortaleza e o primeiro lugar na categoria 40-44 anos no IRONMAN em Florianópolis em 2018.

Tipicamente mineiro, de fala mansa, humilde e brincalhona, Felipe conta que vencer o Capixaba de Ferro foi o término de um importante ciclo de sua vida no Triathlon. “Na realidade eu nunca entrei em uma prova na distancia IRONMAN com a pretensão de vencê-la. Seria muita hipocrisia de minha parte achar isso. No IRONMAN, primeiramente fazemos isso única e exclusivamente para nós mesmos; em segundo, entramos no desafio para completá-lo; em terceiro, tentarmos cruzar a linha de chegada da melhor forma possível; e depois, o resultado é a consequência de tudo isso!”

Fica a dica de Felipe Dayrell para quem quer se desafiar em algumas dessas 3 provas: “A diversão é garantida! Faça isso para você, com muito amor e paixão, independente de tempo, vaidade e resultado final, pois o que vale para nós amadores é o legado que iremos deixar para nossos filhos, nossa família, nossos amigos e todas as demais pessoas que nos querem bem”.


Matéria por Hellen Fante, colaboradora da Revista Alltrinews. Redação final e revisão por Erik Coser, editor da Revista Alltrinews.

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